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14/10/2015

Zuzu Angel e a moda como protesto

Por Lucía Andrea
Designer e empresária de moda

Zuzu Angel poderia ter sido "apenas" mais uma costureira, já que por volta da década de 60, o termo "estilista" não era algo que pudesse ser atribuído facilmente a uma brasileira – A moda era importada da Europa e seguia um rígido padrão visual. Mas Zuzu usou e abusou das referências brasileiras, das cores e do tropicalismo e fez até uma coleção inspirada em Lampião e Maria Bonita. Foi considerada, assim, a primeira estilista brasileira, com visibilidade internacional. No entanto, suas criações foram repentinamente marcadas pela dor: Zuzu, que perdera o filho para a ditadura, fez da moda seu poderoso veículo de protesto.
 


O "anjo" de Zuzu Angel. Fonte: oliviafigueiredo.com

"Eu sou a moda brasileira"

Zuzu Angel deixou ao Brasil um primoroso legado estético e social. Em um país onde a moda se abastecia de estilos importados, especialmente da França, Zuzu foi uma pioneira e praticamente uma transgressora, assumindo seu próprio país como fonte de inspiração. Foi a primeira estilista a usar referências visuais e culturais de brasilidade como temática em suas criações de moda. Produzia artesanalmente e em série, fazia saias, blusas, bolsas, vestidos de noiva e roupa masculina, produzia peças para atrizes nacionais e norte americanas, criava figurinos para cinema e teatro e legitimava seu próprio estilo em suas roupas genuinamente brasileiras. Entre escritórios no exterior e coleções lançadas nos Estados Unidos, Zuzu afirmava categoricamente: "eu sou a moda brasileira".
 


Modelos vestem peças da linha "Candomblé". Fonte: americasouthandnorth.wordpress.com

A moda nos tempos de ditadura

A carreira de Zuzu Angel decorreu nos chamados "anos de chumbo" do regime militar. Em plena época de vigor do AI-5 (Ato Institucional nº 5), que censurava a imprensa e perseguia os opositores do governo, Stuart Angel, o primogênito de Zuzu, entrou para a militância revolucionária, acabou sendo preso e desapareceu. Tinha apenas 26 anos e deixou uma mãe desesperada: Zuzu passou a exercer uma verdadeira saga em busca do filho, procurando-o em todos os lugares que pudesse imaginar. No entanto, a partir da confirmação de seu assassinato, a estilista enveredou em uma segunda saga, agora de protesto e denúncia da situação político-social do Brasil.

Zuzu Angel e a moda como protesto

As criações de Zuzu, antes coloridas, cheias de flores e borboletas, deram lugar aos contornos da censura. As cores, agora trágicas, representavam o medo e a morte. As estampas eram bélicas: canhões, crucifixos, sol atrás de grades, mas sem perder o aspecto lúdico que marcou o estilo da estilista. Colocaram-se em pauta as relações entre moda e mensagem, mostrando uma moda capaz de atuar como veículo político e como meio de transformação social. Zuzu expôs, em passarelas internacionais, a situação política do Brasil e denunciou abertamente as atrocidades cometidas pelo regime militar. Zuzu Angel acabou sendo morta em um forjado um acidente automobilístico na saída do túnel que hoje leva seu nome, no Rio de Janeiro. Nas palavras de Ronaldo Fraga, Zuzu "foi a primeira a buscar a identidade da moda brasileira, a falar do Brasil sem trajes típicos, a acreditar no poder panfletário da moda".
 


Bordado de canhão. Fonte: brasileiros.com.br

Para saber mais

-Em 2006 foi lançado o filme "Zuzu Angel", dirigido por Sérgio Rezende e estrelado por Luana Piovani. O filme relata a história de Zuzu e especialmente sua luta para obter justiça mediante o assassinato do filho.

-Hildelgard Angel (filha mais nova da estilista) fundou, no Rio de Janeiro, o Instituto Zuzu Angel (IZA), responsável pelo primeiro curso superior de moda do país e hoje uma importante instituição de ensino que oferece cursos em diversas áreas criativas.

-Em 2014, em São Paulo, foi realizada a exposição "Ocupação Zuzu". Além das peças de roupa originais da estilista, cartas, documentos e objetos, foram promovidas oficinas educativas, ciclo de palestras e mostra de filmes.

"Stuart não era criança nem sonhador. Era ideológico e patriota. (…) Sabia o que estava fazendo. (…) O país matou e massacrou o que tinha de melhor. Os melhores morreram. Os mais preparados. Os idealistas. Não se constrói um grande nação sem idealistas patriotas. Aliás, por isso não temos uma grande nação, uma verdadeira nação, temos uma nação capenga, pela metade." (Hildegard Angel)
 

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