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17/04/2014

Trajetória de Jum Nakao na moda

Por Eduardo Vilas Bôas
Professor de Moda do Senac SP

Apaixonado por tecnologia, o paulistano Jum Nakao chegou a cursar engenharia eletrônica, mas acabou optando por artes plásticas na FAAP, faculdade da qual saiu em 1987 sem o diploma, por não ter feito as aulas de licenciatura. Era início dos anos 80 e a cultura underground fervia. Nakao frequentava o mítico Madame Satã, reduto da modernidade da época, e observava como o vestuário tinha a ver com as atitudes. Assim, entrou na moda pela possibilidade de transformação e libertação.

A trajetória de Jum Nakao iniciou com sua formação em moda em cursos no CIT (Centro Industrial Têxtil), onde aprendeu com professores como Marie Ruckie, Vera Lígia e Alba Noschese. Em 1987, quando ainda não havia um circuito de desfiles no Brasil, juntamente com Walter Rodrigues e Conrado Segreto, integrou o projeto pioneiro Cooperativa de Moda, em que estilistas de grandes confecções mostravam trabalhos próprios. Mas o reconhecimento público só veio quase dez anos depois, em 1996, no Phytoervas Fashion. Jum trabalhava na Carmin e desligou-se da grife especialmente para se dedicar ao evento. O desfile, inspirado em Bibelô, personagem do cartunista Angeli, foi uma grande vitrine. Logo em seguida, o estilista foi convidado para entrar na Zoomp, onde passou seis anos como gerente de criação.

A trajetória de Jum Nakao mostra a forte influência da tecnologia, da estética japonesa e dos filmes de animação. Seus desfiles haviam se tornado um acontecimento cercado de grande expectativa. Performático, o estilista gostava de causar impacto, mas sempre com grande encantamento da plateia.

Há 20 anos trabalhando com moda, Jum se questionou lá por 2003 sobre o que ele estaria agregando nas pessoas. O que ele fazia pelo outro? O quanto a moda havia o embrutecido? Suas respostas provavelmente não foram muito positivas, pois em 2004 ele resolveu encerrar suas atividades como estilista.

A (famosa) coleção A Costura do Invisível foi seu último trabalho e, como deveria ser, tinha que fechar com chave de ouro sua trajetória. Junto da equipe mergulhou em um mundo interior na tentativa de buscar a melhor forma/tema para expressar sua nova visão de mundo.
 

Peça da coleção de moda A costura do invisível/ Reprodução

 

Jum Nakao, então, optou por uma coleção em papel porque é nele que nascem os esboços das grandes ideias, é de onde se faz o dinheiro, mas, ao mesmo tempo, alguns acham que uma folha em branco não vale nada. Fazer a coleção toda em papel (além de um desafio técnico) seria provar que o que importa não é o que está escrito, mas sim a mensagem que se deixa. O invisível que só podemos sentir.

A coleção foi pautada em dois grandes temas: oceano e século XIX. O oceano em alusão ao seu mergulho interior na busca de respostas pessoais e profissionais. É fácil ver que a passarela foi toda decorada com anêmonas de cones de papel (mais de 7 mil). Já o século XIX foi revisitado em função de toda a riqueza e elaboração nas construções têxteis. Era nesses shapes que Nakao encontraria mais uma ferramenta necessária ao seu processo criativo. Encantar o espectador era uma forma de prendê-lo ao tema, trazer uma sensação pouco vivida nos dias de hoje e, por fim, chocá-lo quando as peças são todas destruídas. Se assim não fosse, não seria possível entendermos que o valor intencional é muito maior do que a construção material em sim.

O styling do desfile ficou a cargo de modelos em série, utilizando na cabeça uma espécie de peruca moldada no formato da cabeça dos bonecos Playmobil, isto porque, para Jum, essa impessoalidade permitiria que cada pessoa se projetasse nos looks.

Sua obra, muito além da efemeridade banal da moda, tornou-se um marco reverenciável para todos os profissionais do setor. Por isso, vale a pena sintetizarmos quais foram os principais motivos que destacaram essa coleção:

1. Pela forma de construção do vestuário a partir do papel vegetal, que apesar de não inédita, exigiu extrema capacidade técnica para execução e modelagem em mais de 700 horas de trabalho.

2. Por tornar o efêmero duradouro, uma vez que um desfile de moda tornou-se arte atemporal.

3. E, por fim, Jum Nakao conseguiu construir uma obra transversal, juntando num mesmo espaço e momento, moda, performance, escultura, fotografia, vídeo, música e design.

 

 

 

 

 

Jum Nakao/ Reprodução

A trajetória de Jum Nakao mudou quando ele notou que seria através da educação que o mundo poderia ser mudado, seria através da educação que ele conseguiria tocar e mudar as pessoas de alguma forma positiva. E, por isso, hoje ele é professor de moda ministrando oficinas Brasil a fora.

Certa vez questionado sobre seus reais motivos para ter desistido do estilismo, Nakao respondeu: a vida é feita de ciclos, e se não quebrarmos àqueles completos, jamais começaremos novos.

Assista abaixo o desfile da coleção de moda A Costura do Invisível de Jum Nakao:

 

 

 

Uma resposta para “Trajetória de Jum Nakao na moda”

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    Torço para que se expanda cada vez mais para mais pessoas.
    Parabéns pelo blog que transmite essas ricas informações.
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    Abs, bjs.

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