Descubra como o tingimento natural é feito nos Andes

Lucía Andrea Vinatea Barberena
Designer, antropóloga e empresária de moda

 

Em 2009, trabalhei quase um ano em Cusco, no Peru, junto à comunidades andinas nativas que produzem têxteis finíssimos com fibras de alpaca, lhama e ovelha. Nesse processo, são empregados conhecimentos ancestrais no que diz respeito aos padrões geométricos, aos teares e, claro, ao tingimento.

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Trabalhando com os artesãos da comunidade Huacatinco, em Cusco, Peru. Fonte: Acervo Pessoal

 

Plantas verdes

À primeira vista, todas as plantas são verdes. Kinsakucho, molle, eucalipto, chilca… Mas é na panela que a mágica acontece. As senhoras andinas, conhecidas como “mamachas”, dominam as técnicas de tingimento e produzem uma gama infinita de cores, desde as mais vibrantes até os tons pastéis.

Cada planta tem diferentes propriedades. De algumas, são utilizadas as folhas; de outras, o talo; e, de outras, a raiz. Por vezes, até mesmo líquens e insetos (cochonilha) entram na equação. Existe, inclusive, uma raiz saponácea, que é usada para lavar as fibras. É algo incrível de se ver: faz até espuma, igual sabão de verdade.

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Plantas e cores. Fonte: 7continents1passport.com

 

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“Mamacha” tingindo lã de alpaca na comunidade Pitukisca, em Cusco, Peru. Fonte: Acervo Pessoal

Habemus xixi

E para fixar as cores… Nada mais, nada menos do que xixi de homens menores de 15 anos. Mas por que? Simples: a urina masculina possui maior concentração de ácido úrico, que funciona perfeitamente na hora de fixar a cor nas fibras. E deve ser de menores de 15 anos porque os mais velhos consomem álcool, que bagunça todo o PH do xixi e, em consequência, pode atrapalhar a fixação das cores.

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Manneken Pis, símbolo de Bruxelas. Fonte: lostraveleros.com

 

Chinchero

Para quem quiser conhecer de perto o processo de tingimento, na cidade de Chinchero, próxima a Cusco, no Peru, existem vários centros têxteis onde são feitas demonstrações ao vivo da tecelagem andina. É possível adquirir lãs tingidas naturalmente e também peças têxteis já acabadas.

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Tecedoras e tecedores de Chinchero. Fonte: go2peru.com

 

Nilda Callañaupa

Nilda Callañaupa escreveu um livro maravilhoso, chamado “Weaving in the Peruvian Highlands: Dreaming Patterns, Weaving Memories”. A autora é uma artesã de Chinchero cujo trabalho tem sido importantíssimo para fortalecer e empoderar a atividade têxtil nativa dos Andes e também por impedir que técnicas têxteis ancestrais caiam no esquecimento. Fica a dica para visitar sua loja, chamada “Centro de Textiles Tradicionales”, que fica na Av. Sol, nº 603, na cidade de Cusco, no Peru.

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Capa do livro “Weaving in the Peruvian Highlands: Dreaming Patterns, Weaving Memories”. Fonte: amazon.com

 

Dos Andes para a cidade

Os empresários Alfredo Herrera e Marta Barberena, de Lima, no Peru, desenvolveram um corante à base de batata-doce roxa que pode ser usado tanto para finalidade têxtil como para produtos alimentícios. A batata-doce, de origem andina, produz cores em tons avermelhados, e tranquilamente substitui o carmim da cochonilha.

 

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Corante de batata-doce roxa. Fonte: Acervo Pessoal

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