Semiótica aplicada a cultura da vestimenta

Por Eduardo Vilas Bôas
Professor de Moda do Senac SP

Na origem dos estudos da Semiótica da Cultura, está a Escola de Tártu-Moscou, como fruto dos trabalhos do semioticista Iúri Mikháilovitch Lótman (1922-1993), estudioso que deu origem a abordagem e aproximação entre a questão da semiótica e a ampla área da cultura.

A partir desse referencial teórico podemos buscar entender como objetos e eventos podem assumir significações tão diferentes entre as mais variadas culturas. Esse fenômeno da significação cultural é fundamental nos processos de comunicação e gestão de produtos, uma vez que aquilo que funciona (e vende) bem num país ou região, não necessariamente poderá colher os mesmos frutos em outros mercados.

Um exemplo pragmático da semiótica aplicada a cultura da vestimenta pode ser visto nas saias. O kilt, mais especificamente, é uma indumentária pouco utilizada no continente Americano, mas muito difundido na Europa. Por definição podemos entendê-lo como um saiote pregueado, liso na frente e trespassado dos lados, feito de lã e com padronagem de tartan (um tipo de xadrez).

 

Semiótica aplicada a cultura da vestimenta traduz a importância do kilt para a Galícia/ Reprodução

Ao revisitarmos a história da indumentária e da moda, vemos que as roupas surgiram e se mantiveram por séculos sem uma evidente distinção de gênero quanto à modelagem, ainda que as saias masculinas fossem comuns na maior parte dos povos Atlânticos, incluindo a Galícia, por mais de um milênio. Porém, como afirma Gilles Lipovetsky no seu livro “O Império do Efêmero”, somente em 1330-1340 é que o homem passou a utilizar calças, delegando as saias e os vestidos a uso quase restrito das mulheres. 

Enquanto os homens do resto do mundo absorveram a calça como nova modelagem, os irlandeses e escoceses (e mais tarde os ingleses e galeses), insistiram no uso do kilt. Mas logo entendemos a importância da semiótica aplicada a cultura da vestimenta referente a esse artigo para o povo britânico. Sua origem está associada aos guerreiros celtas que povoaram as ilhas britânicas, dando inicio as culturas que ali permanecem até hoje.

Seu valor cultural e tradicional endossa uma imagem de virilidade, força e bravura. Isto é, o kilt foi mantido pelos homens contemporâneos como sinal de uma identidade celta moderna e revivalismo histórico em certos contextos folk. A própria cor do tartan do kilt serve para sinalizar o clã ao qual cada individuo faz parte dentro da hierarquia social daquele povo.

 

 

 

Figura "Princeps" de Lezenho, no sul da Galícia. Estátua do século III a.C./ Reprodução

Por outro lado, pensando no uso das saias por homens aqui no Brasil, vemos que em 1956, Flávio de Carvalho, um dos grandes nomes da geração modernista de 1922, criou a sua Experiência Nº 3 ("_New Look_ de Verão", uma das mais importantes peças da arte brasileira do século 20) e saiu pelas ruas de São Paulo vestindo duas saias.

Para ele, o homem do momento era alguém que sentia calor – portanto, uma vestimenta adequada incluiria uma saia. Porém, a ideia não fez sucesso por ir na contramão dos valores culturais brasileiros arraigados num contexto conservador, machista e cristão, que não atribui utilidade à saia, mas apenas uma conotação feminina e subestimada. 

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