Profissão modelo: as evoluções dos padrões de beleza

Por Eduardo Vilas Bôas
Professor de Moda do Senac SP

O primeiro referencial de beleza do homem parece ter sido os deuses gregos, ou seja, um padrão imaginário, ainda que inspirado na fisionomia humana, criado como o maior modelo de perfeição estética. Séculos mais tarde os artistas plásticos utilizavam-se de nobres, amigos e parentes, enquanto no século XVIII, durante a Renascença, os pintores pagavam pessoas para modelar. Ainda, porém, não era um ofício do qual podia sobreviver uma pessoa em função da baixa demanda de serviços. Durante o reinado de Luís XIV, a corte francesa ainda enviava bonecas em proporção ao tamanho natural de uma pessoa às outras cortes europeias para que suas damas as reproduzissem. Essa prática perdurou até surgimento da Câmara Sindical de Alta Costura (1868).

Charles Frederick Worth, criador da Alta Costura, também precisou pensar uma nova forma de apresentar – e valorizar – seus produtos inovadores e exclusivos. Inicialmente sua esposa, Marie Vernet, servia de “modelo”, mas ao sistematizar a apresentação dos produtos de moda em coleções e desfiles, Worth criou também os desfiles de moda e profissionalizou o ofício. Desfilar em passarela, porém, não era uma atividade muito bem vista e apenas as atrizes sujeitavam-se a experiência. Apenas ao longo do século XX que a profissão de modelo tomou forma, o que podemos atribuir ao crescimento industrial e as invenções como a fotografia, a televisão, as revistas coloridas e a internet. Nas últimas décadas a profissão se tornou muito mais valorizada, talvez em razão da evolução da moda e da publicidade, setores que ganharam maior importância na economia de muitos países.

Do culto ao belo surgiu essa profissão que faz da beleza seu produto principal. O que era uma eventual ocupação virou uma profissão. Mas, o conceito bastante dinâmico de beleza afeta diretamente esse profissional, pois muda com o tempo e com a sociedade. Por exemplo, no século XVII as mulheres mais gordinhas eram aclamadas e as formas de Gisele Bundchen trouxeram mais curvas ao padrão de beleza do século XXI. No entanto, apesar dos atuais recursos da cirurgia plástica, uma modelo tem que ter a sorte de nascer adequada para os padrões estéticos do seu tempo.

A propósito, o padrão de beleza que vigora, da modelo ainda magérrima e alta, não reflete o gosto das ruas. Essa ditadura da beleza é imposta por uma elite que inclui estilistas, produtores, publicitários, editores de moda e de revistas masculinas, que domina a concepção e venda de imagens de moda – tão valorizadas e influentes em nossa sociedade. Curiosamente, pesquisas mostram que os homens gostam mais das mulheres que têm uma proporção de 70% ou menos entre cintura e quadril. Isto é, aqueles 90-60-90 (90 cm de busto, 60 cm de cintura e 90 cm de quadril) que os concursos de misses consideram como ideal de beleza representam 66%. A Mulher Melancia, capa da Playboy mais vendida em 2008, tinha 64% (75x119cm). Outra evidência foi apontada pelo psicólogo Devendra Singh, da Universidade do Texas, que mediu 286 esculturas antigas de mulheres, vindas da Ásia, da África e da Europa, e viu que a proporção entre cintura e quadril nas obras ficava exatamente nessa faixa.

 

 

 

 

Desfiles de moda atuais

 

 

 

 

Apresentação dos vestidos de Worth nas primeiras modelos vivas.

 

 

 

 

A obra “As Três Graças”, de Rubens, reflete o padrão estético do século XVII

 

 

 

 

Bonecas de moda francesas originais do século XVII e XVIII

 

 

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *