O que uma blusa de bolinhas pode ensinar sobre Slow Fashion

Primeiramente, devo admitir: sou uma frequentadora assídua de brechós. Adoro vasculhar pilhas e pilhas de roupas atrás de tesouros fashion. Eis que um dia qualquer encontrei uma blusa branca de bolinhas pretas. Tecido bom, gola peter pan, modelagem ampla, jeitão anos 90. Levei. Coloquei com cinto e sem cinto, combinei com legging e shortinho, usei no inverno e no verão, vesti para trabalhar e até para sair de férias. Mas chegou um momento em que resolvemos desapegar. Fiz uma limpeza de armário e acabei vendendo a tal blusa para uma amiga: e lá se foram as duas, felizes e contentes.

Esta história terminaria aqui se não fosse pela seguinte coincidência: um bom tempo depois, estou olhando uma arara em um brechó de rua e adivinhe quem está lá, pendura e cheirosa? Minha "ex" blusa de bolinhas. Conversando com a vendedora da minha ex-blusa, descobri que ela havia sido recentemente trocada com aquela minha amiga por uma outra peça de roupa. Detalhe: eu comprei a blusa por três reais e vendi por cinco. E agora, no varal, ela já estava valendo dez reais – ou seja, quanto mais usada, mais valorizada!

Parece irreal? Pois é, mas aconteceu. O fato rendeu umas boas risadas, mas também trouxe à tona a reflexão sobre um conceito muito importante: a teoria do Slow Fashion, ou em português, a "moda lenta". O movimento Slow Fashion, em oposição ao Fast Fashion, pode ser resumido assim:

– Peças de modelagem cuidadosa, ou seja, o fabricante se deu o tempo de testar o caimento e fazer os ajustes necessários para peça ficar per-fei-ta no corpo;

– Os materiais empregados são duráveis: nada de tecidos que desbotam, deformam, ou fazem bolinhas logo nas primeiras lavagens;

– O estilo é atemporal: as roupas não precisam ser retas e sem graça, mas devem ter o cuidado estético necessário para sobreviver às micro tendências e à passagem do tempo;

– Menos é mais: já não é imprescindível (nem bonito!) comprar uma peça de roupa caríssima para usar apenas uma vez. É possível pensar soluções contemporâneas de aluguel e empréstimo de roupas para ocasiões que requerem vestuários mais elaborados. Brechós e sistemas de trocas também estão valendo.

– Priorizar a utilização daquilo que já está pronto, em vez de fabricar coisas novas: produtos novos requerem matéria prima, água e energia. Reutilizar o que já existe economiza um montão de recursos naturais que podem fazer falta mais tarde para coisas mais essenciais à nossa sobrevivência.

– E finalmente, um estilo de vida mais lento. Nossa forma de vestir reflete quem somos! Apostar no Slow Fashion é desacelerar-se como um todo. Ter tempo de abraçar, de contemplar o céu e de ser feliz com coisas simples. Cá entre nós, não dá para fazer nada disso quando se está correndo para consumir (ou fabricar) o último grito da modinha, certo?


Fonte: wisegeek.com

Mas afinal, o que fez a blusa de bolinhas passar por tantos armários e continuar existindo? Vamos por partes:

1. Ela foi feita de um tecido durável, que não desbota nem deforma.
2. Sua modelagem é versátil, pois ao ser ampla, cai bem tanto em moças magrinhas quanto gordinhas.
3. Suas cores neutras (branco e preto) a permitem combinar com diversas peças de roupa e acessórios.

Claro que de nada teria adiantado para a bela blusinha reunir todos esses atributos se sua primeira dona a tivesse jogado no lixo, lá nos anos 90. O movimento Slow Fashion é, portanto, um esforço de todos e para todos: é necessário desenvolver essa cultura de "desaceleração" tanto nos consumidores quanto nos fabricantes. Quem sai ganhando? Todos! Sobra mais tempo, sobra mais dinheiro e claro, sobra planeta para nós e para as próximas gerações. E você? Quantas blusas de bolinhas será que tem no seu armário?


Blusa de bolinhas parecida com a da história / Fonte: tvojklik.com

 

Por Lucía Andrea Vinatea Barberena

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