Moda belga: o DNA criativo de uma nação

Por Kledir Salgado
Designer de moda com Mestrado em Têxtil e Moda pela USP

Você já ouviu falar na moda belga? A Bélgica é um dos principais fornecedores de talentos do mundo da moda desde o início dos anos 1980, quando um grupo de colegas com nomes impronunciáveis, que ficou conhecido como os “Seis da Antuérpia”, ganhou fama internacional.

Composta por Dries Van Noten, Dirk Bikkembergs, Marina Yee, Dirk Van Saene, Walter Van Beirendonck e Ann Demeulemeester, a turma da moda belga de então desconhecidos abriu a porta para outros designers, como Raf Simons e Kris Van Assche, que dirigem, respectivamente, o estilo feminino e o masculino da Dior, ou ainda Anthony Vaccarello, responsável pela linha mais acessível de Donatella Versace.

Sem esquecer o misterioso Martin Margiela, o fascinante Haider Ackermann ou ainda Olivier Theyskens, que assina as coleções da norte-americana Theory, depois de ter passado pelas maisons francesas Rochas e Nina Ricci. Outros nomes são Raf Simons, Dries Van Noten, Martin Margiela e Ann Demeulemeester.

Muito da fama da moda belga contemporânea deve-se ao movimento que ficou conhecido como The Antwerp Six (Seis da Antuérpia). Eles se formaram na Royal Academy of Fines Arts bem no início dos anos 1980 e tinham uma visão radical e original da moda. Em 1986, o grupo alugou uma van e partiu para Londres com o carro cheio das próprias criações. Lá eles apresentaram suas coleções na feira da London Fashion Week.

Da esquerda para a direita: Marina Yee, Dries van Noten, Ann Demeulemeester, Walter van Beirendonck, Dirk Bikkembergs e Dirk van Saene. Foto: reprodução.

Um dos diferenciais desse grupo da moda belga é a construção de uma visão forte, notada desde o primeiro desfile. As propostas dos estilistas sempre foram vanguardistas e inteligentes. Assim, eles criaram um universo inteiro, um vocabulário próprio, e não apenas roupas. Muitos deles passaram a desfilar em Paris, como Dries van Noten e Ann Demeulemeester. Até hoje, os desfiles de Dries ficam entre os mais bonitos e originais a cada temporada.

Na Bélgica, a parte acadêmica é supervalorizada e os alunos aprendem moda em faculdades de arte. Entre as principais escolas, estão a Antwerp Academy e a La Cambre, em Bruxelas, com professores incríveis, como Walter van Beirendonck, um dos fundadores do Antwerp Six.

A moda belga é muito conceitual e intelectualizada. Os estilistas têm muita personalidade na criação. Porém, nada que impeça a parceria com grifes mais comerciais, como foi o caso de Margiela na Hermès e Raf Simons, atualmente na direção criativa da Jil Sander.

Como percebido, a intelectualização da moda construiu o DNA criativo da moda belga, que se tornou um exemplo a se seguir por todo criador de moda e por todas as instituições de ensino de moda do Brasil.

A construção do DNA criativo brasileiro, por sua vez, só será efetivada quando pararmos de copiar tudo o que vem de fora, nos entendermos como nação criadora e, a partir disso, intelectualizarmos nossa moda a fim de formar um profissional de moda que resolva problemas através de uma visão crítica de mundo e não da reprodutibilidade de artigos que atinjam apenas maior número de vendas.

John Galliano para Margiela

Leia mais:
As vantagens de ser invisível – Tendência de comportamento
Couture tecnológica: A tecnologia a serviço da alta-costura
Exposição Future Beauty mostra peças de estilistas japoneses

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *