Gender-bender: a moda além do gênero

Por Lucía Andrea
Designer e empresária de moda

 

Ao tentar definir "moda", são usuais diversas generalizações que não tardam muito em cair por água abaixo. Por exemplo, é comum dividir a moda entre masculina e feminina: calças para homens e saias para mulheres. No entanto, nem sempre foi assim. Gregos e romanos usavam túnicas, independente do seu gênero, assim como homens de povos montanheses (escoceses por exemplo) ainda utilizam saias. E por mais estranho que pareça, as mulheres no Oriente usaram, durante muito tempo, calças.

Relatos como esse alimentam uma discussão que vem ganhando bastante destaque na atualidade: a moda "gender-bender" – algo que poderia ser traduzido como "moda além do gênero". Mas afinal, o que é essa moda que não distingue sexo? Para responder essa pergunta, é pertinente voltar um pouco no tempo.

 


Traje típico escocês. Fonte: voyagerguide.com

 

A mulher-troféu

 

Os binarismos na vestimenta ocidental tornaram-se mais evidentes por volta da Idade Média. A mulher era considerada um troféu. Portanto, enfeitar a mulher com roupas e adornos refletia diretamente a riqueza do seu esposo. Esse comportamento ficou ainda mais marcado na era Barroca, permeada pelo extremo exagero na ornamentação.

 

Chegou-se a tal ponto de ostentação, que muitas vezes as mulheres não podiam nem se movimentar sozinhas, dado o enorme peso e volume de suas vestes. Outros tempos se sucederam, como a era Vitoriana e a Belle Époque. Embora o estilo tenha mudado, pouco foi modificado em relação à acentuada diferenciação homem/mulher.

 


Cena do filme "Maria Antonieta", de Sofia Coppola. O filme é ambientado na era Barroca. Fonte: cinematicabr.blogspot.com

 

Roaring Twenties

 

Foi nos anos 20 que Coco Chanel buscou no tailleur masculino a matéria-prima para suas criações. Pela primeira vez em séculos, as mulheres usaram trajes sóbrios, variações das peças encontradas no guarda-roupa de seus maridos. Em geral, a moda dessa década foi marcada por uma transposição do gênero.

 

O ideal de beleza era a mulher sem cintura, para se assemelhar ao corpo masculino: Daí os vestidos Charleston, de corte reto, com ornamentos apenas nos quadris. O cabelo era curto, escondido sob gorros enfeitados. Esse corte de cabelo era chamado de À la Garçon, ou seja "cabelo de menino". Foi, portanto, uma década dedicada à androginia. Os anos 20, também chamados de Roaring Twenties certamente mudaram, para sempre, a maneira de se fazer moda.

 


Mulheres dos anos 20. Fonte: fashionatto.literatortura.com

 

E no século XXI?

Hoje, na segunda década do século XXI, existem diversas discussões em voga, e talvez uma das mais extensas (e polêmicas) seja justamente aquela relacionada com as questões de gênero. É importante ressaltar que há uma diferença, no linguajar antropológico, entre sexo e gênero. Sexo refere-se a uma condição biológica, enquanto gênero é algo performático, comportamental.

 

A moda, que jamais ficaria impassível diante da era na qual está inserida, evidentemente reflete o momento em que se vive. Em pleno debate pela igualdade de gênero, uma marca inglesa, a Selfridges, criou uma linha de roupas intitulada Agender. Sem divisão em seções de roupa masculina e feminina, o cliente pode escolher aquilo que mais gosta, sem se preocupar com a distinção de gênero. A organização da Selfridges é apenas um exemplo da moda além do gênero. O tema certamente ganhará cada vez mais espaço na sociedade, e por consequência, na moda.

 

Looks sem gênero. Fonte: thevintagesceneuk.blogspot.com

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