Do cangaço à passarela

Por Lucía Andrea, 
Designer, empresária de moda e antropóloga

Passear pelas ruas de Recife, Pernambuco, nordeste do Brasil, é uma experiência deliciosa. Em meio aos canais e aos casarios holandeses e portugueses, erguem-se uma infinidade de mercados e vendedores ambulantes recheados de objetos que me remetem imediatamente às épocas do cangaço.

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O bando de Lampião, o rei do cangaço. Fonte: cariricangaco.blogspot.com.br

Muitos anos se passaram e o nordeste já viu muitas transformações, mas no mercado de São José, no Centro de Recife, a essência sertaneja ainda está ali. Sejam pelas gravuras, pelos objetos de vime, ou pelos bordados e as rendas, o cangaço – na sua melhor expressão da palavra – ainda vive. Mas em minha opinião, ele resiste principalmente nos stands de calçados e artigos de couro.

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Mercado de São José. Fonte: acervo pessoal

Depois de provar algumas sandálias, acabei me apaixonando por um par em cor crua, bem tradicional e feito à mão. Depois de pechinchar um pouco, já saí calçando minhas sandalinhas de couro de bode, e o melhor, por apenas 25 reais.

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Minhas sandálias ao estilo cangaço. Fonte: acervo pessoal

Decidi pesquisar um pouco mais sobre os calçados de couro nordestinos, e eis que me deparo (e me apaixono) com Espedito Seleiro, um senhor de 74 anos que transformou as sandálias de Lampião e Maria Bonita em acessórios de moda. Conta ele que seu pai, um costureiro de selas de montar, certo dia recebeu uma encomenda de sandálias de solado quadrado, que seriam nada mais nada menos que para o mesmíssimo Coronel Virgulino.

Diante do declínio do consumo de selas de montar, Espedito precisou inovar. E como se fosse uma profecia, certa vez recebeu um pedido para reproduzir um par de sandálias usadas por… Lampião! E o fez, com maestria. Dali pra frente começou a fabricar outros tipos de calçados, e sua grande inovação foram os calçados em couro colorido.  

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Detalhe dos objetos feitos por Espedito Seleiro. Fonte: brasil.elpais.com

O negócio foi crescendo, até que em 2006 Seleiro foi convidado para fazer os calçados que a grife Cavalera usou no desfile da São Paulo Fashion Week. Logo figurinistas de novelas e filmes começaram a procurá-lo, e o artesão tornou-se referência quando se trata de retratar o cangaço.

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Matéria na revista Living For. Fonte: saltoagulha.com

Apesar de tudo, o sucesso não o deslumbra. Espedito não quer abandonar a manufatura, e muito menos Nova Olinda, sua cidade no Ceará. E assim ele explica, sabiamente: “O que eu acho bom na vida é isso aqui. É por isso que eu tenho 74 anos, mas só tenho mesmo é 18. Porque eu só faço o que eu gosto. Se der para eu ganhar 1.000 reais eu ganho. Se não der, eu ganho 100. Eu quero ficar do jeito que eu comecei. A vida só é boa quando você se conforma com ela.”

Fonte de pesquisa

– El País

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