Alfaiataria tradicional versus alfaiataria industrial

Por Francys Saleh

Designer e docente no curso de Design de Moda na Universidade Católica de Pelotas (UCPEL)

 

Imagem: Reprodução

 

Você já percebeu que o estilo masculino difundido no início do século XIX permaneceu com poucas alterações até os dias de hoje? Os componentes de um traje de alfaiataria – paletó, calça e colete – possuem linhas originárias do final das guerras napoleônicas, porém, ao longo dos anos, algumas mudanças ocorreram naturalmente no comprimento e na silhueta, seja os definindo ou alargando.

 

O mais surpreendente é que a paleta de cores dos anos iniciais permaneceu praticamente inalterada. O uso de lã em cores escuras e neutras, justapostas a linho ou algodão brancos, refletiu um novo estado de espírito da sociedade.

 

A sensibilização crescente da importância da higiene fez com que a utilização do linho puro fosse uma demonstração óbvia de que a limpeza estava certamente próxima à religiosidade. George “Beau” Brummell (1778–1840), praticante desse novo conceito de vestir, era meticuloso em sua limpeza, descartando diversas gravatas por não estarem devidamente limpas, passadas e acabadas. Ele despertou maior interesse sobre como vestir-se adequadamente e foi um grande exemplo de homem bem vestido.

 

Desde que o primeiro estabelecimento de alfaiataria foi aberto, em 1785, a Savile Row de Londres se tornou conhecida mundialmente pela alfaiataria sob medida.

 

Em 1969, Tommy Nutter e Edward Sexton abriram a loja Nutters. Eles foram pioneiros na apresentação de vitrines e revolucionaram a Savile Row. Hoje, Ozwald Boateng, Richard James e Timothy Everest fazem parte da nova geração de mestres da alfaiataria, que atendem a um público que requer trajes de caimento perfeito, com excelente qualidade, feitos de forma artesanal.

 

A alfaiataria é uma habilidade tradicional complexa que exige conhecimento técnico especializado. Imagem: Reprodução

 

Muitos profissionais da indústria da moda admiram o ofício do alfaiate, mas não se aventurariam na construção de uma roupa de alfaiataria. Organizados em associações e entidades de classe, a profissão de alfaiate tem sido protegida pelos indivíduos que nela trabalham, os quais, por sua vez, passam adiante e resguardam seu conhecimento com muito cuidado.

 

Com o passar do tempo, novas máquinas e materiais de fusão foram incluídos no mercado de alfaiataria. No entanto, muitos profissionais não estão convencidos dos resultados e preferem usar somente os métodos de costura manual para garantir o formato preciso do tecido. Máquinas são usadas somente para fechar costuras e pences.

 

Hoje, a alfaiataria pode ser dividida em duas categorias: a alfaiataria tradicional personalizada, que continua a praticar técnicas artesanais similares às usadas um século atrás; e a alfaiataria industrializada, que dispõe de processos mais rápidos e, portanto, menos caros, os quais constroem paletós e casacos com acabamento industrial. Isso significa que peito, bolsos, colarinho e ombros são reforçados por uma entretela termocolante e peças pré-fabricadas.

 


Ponto “Pad Stitching”. Imagem: Reprodução

 

O pad stitching (tipo de ponto usado para unir manualmente duas camadas de materiais com pontos diagonais, de uma coluna à outra) é substituído pelo trabalho de uma máquina que reproduz o padrão do ponto. A circunferência do ombro é unida à cabeça da manga com costura à máquina, em vez de ser feita à mão, podendo, assim, ser recolocada de forma cuidadosa conforme as necessidades do cliente. O traje de alfaiataria industrializado pode ser produzido em um padrão muito alto de acabamento, mas nunca terá um caimento individualizado e o toque de exclusividade que um traje customizado possui.

 

Bibliografia: Construção de vestuário: Coleção Fundamentos de Design de Moda – Bookman

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