A onda do consumo consciente de moda

Nai Salvi
Designer de Moda, especialista em Criação e mestranda em Gestão do Design (UFSC).

A onda de consumo consciente de moda, que levou muitas empresas a se preocuparem com design e qualidade, ganha força a cada dia e motiva inúmeras reflexões sobre nossas atitudes de consumo. A mais recente está relacionada ao movimento Fashion Revolution, uma causa humanitária estimulada pelos últimos acontecimentos em torno do uso de mão de obra escrava por grandes marcas e conglomerados de moda.

O FASHREV, como foi abreviado o nome do movimento, tem por intuito evidenciar a preocupação com a origem das roupas que usamos e promover a reflexão sobre o consumo consciente das peças. O cartaz “Who made my clothes?”, que do inglês quer dizer “Quem fez as minhas roupas?”, foi difundido no mundo todo, desde pessoas comuns engajadas pela causa até grandes marcas e formadores de opinião.

O evento foi lançado em 24 de abril, data conhecida como Dia da Revolução Fashion e que marcou o desabamento do prédio Rana Plaza, em Blangadesh, em 2013, onde funcionava uma fábrica de roupas. A queda matou mais de mil trabalhadores.

O conhecimento da origem dos objetos que consumimos está atrelado a uma preocupação ética, não apenas para termos certeza de que não estamos incentivando a manutenção de condições impróprias de trabalho, como também para dar um tom de gratidão às pessoas que dedicam seu tempo fabricando as peças que nós escolhemos nas araras e manequins das lojas que frequentamos. Logo, precisamos difundir a consciência de que nada acontece por mágica e, assim, difundir o consumo consciente.

É necessário saber que há um processo custoso de produção que intermedia a cadeia entre o desejo e a realização de um produto. E, quando encontramos a oferta de produtos por poucos centavos de dólar, sabemos que algo neste processo está errado, que alguém está perdendo.

Uma ação desse tipo foi promovida pelo movimento. Veja o vídeo (http://www.youtube.com/watch?v=KfANs2y_frk) em que pessoas se deparavam com a venda de produtos por 2€, valor próximo a R$ 6,80. Um atrativo para o consumo impulsivo, sem dúvidas. Muitas pessoas resolveram adquirir os produtos, mas ao efetuarem a compra, deparavam-se com a imagem da pessoa que os havia confeccionado, submetida à uma jornada diária de 16h, por uma recompensa de 0,13 centavos de euros. O participante, surpreendido com a realidade por trás dos produtos, tinha a opção de comprar ou fazer a doação.

Grandes marcas de moda, por possuírem uma demanda muito grande de produção, terceirizam a etapa produtiva para outras empresas especializadas, que por sua vez não cumprem com a ética e o profissionalismo exigidos por lei e pelo bom senso. Ainda assim, as empresas contratantes de serviços terceirizados devem fiscalizar tanto a qualidade do produto que está sendo fabricado quanto as condições às quais os funcionários da empresa contratadas estão sendo submetidos.

O mercado de terceirização traz grandes vantagens a diversos setores, principalmente quando envolvem serviços e maquinários especializados. Essas ações minimizam os investimentos em capital e mão de obra e favorecem a qualidade dos produtos, porém apresentam alguns riscos que precisam de um olhar atento e preocupado, já que o contratante se torna inteiramente responsável pelas irregularidades do contratado.

O Fashion Revolution ainda está juntando forças na luta contra ações ilegais e desumanas de trabalho, mas já mostra que essa causa é defendida por muitos formadores de opinião e até por marcas envolvidas em alguns escândalos. A Zara, por exemplo, foi alvo de ações de causas trabalhistas durante o FASHREV e recebeu vários questionamentos sobre quem havia fabricado as roupas da marca. O interessante foi que a empresa respondeu aos clientes, indicando em detalhes o fabricante da peça e demonstrando dedicação especial dispensada aos consumidores preocupados.

A preocupação com a transparência é um importante diferencial de comunicação com os consumidores, capaz de mostrar que, assim como eles, a marca ou a empresa também tem preocupação com as ações que propaga e às condições que oferece.

Fonte das imagens: http://fashionrevolution.org/
Fonte do vídeo: http://awebic.com/

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